A CANALIZAÇÃO DAS VALAS DE DRENAGEM PODE AGRAVAR OS ALAGAMENTOS EM IMBÉ
Avenida São Miguel, esquina com Garibaldi: depois da canalização, uma chuva de intensidade média foi suficiente para alagá-la
Uma análise técnica sobre a substituição de valas abertas por tubulações em um município de solo arenoso, terreno plano, lençol freático elevado e influência das marés
1. Uma pergunta que precisa ser enfrentada
Os moradores e veranistas de Imbé vêm observando uma situação que merece análise técnica: os alagamentos parecem estar aumentando em frequência, extensão e duração, ao mesmo tempo em que antigas valas de drenagem vêm sendo progressivamente substituídas por tubulações enterradas.
Uma coincidência temporal, por si só, não prova uma relação de causa e efeito.
Mas isso não significa que a hipótese possa ser simplesmente desconsiderada.
Ao contrário: as características físicas de Imbé e os problemas que podem ocorrer em sistemas subterrâneos tornam tecnicamente necessária uma investigação sobre o desempenho dessas substituições.
O próprio Gabinete de Assessoramento Técnico do Ministério Público do Rio Grande do Sul – GAT, no Parecer Técnico Documento UAA nº 1194/2026, apontou que o Município não demonstrou a eficácia da solução adotada nem a inexistência de alternativas sustentáveis, além de não ter apresentado o alegado amplo projeto de macrodrenagem. O GAT considerou pertinentes os argumentos técnicos apresentados pela ACIBM.
Portanto, a questão não é ideológica.
É uma questão de engenharia, hidráulica, geotecnia, planejamento e responsabilidade ambiental.
2. Não estamos falando de uma simples troca entre “vala antiga” e “tubulação moderna”
É importante corrigir uma ideia muito difundida.
Uma vala de drenagem aberta e vegetada não é necessariamente uma estrutura ultrapassada que precisa ser enterrada.
Na engenharia ambiental contemporânea, ocorre muitas vezes justamente o movimento contrário.
Em diferentes países e cidades, sistemas que anteriormente haviam sido canalizados ou enterrados estão sendo recuperados, reabertos e transformados em canais superficiais vegetados, quando as condições locais permitem.
Esse processo é conhecido, entre outras denominações, como daylighting — trazer novamente para a superfície um curso d'água que havia sido colocado sob o solo.
A própria Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos – EPA documenta projetos nos quais galerias e tubulações subterrâneas foram removidas para restabelecer o escoamento superficial, recuperar a vegetação e melhorar as condições ambientais e hidráulicas. Em Atlanta, por exemplo, foram removidos trechos de galerias subterrâneas e restaurado o canal natural com vegetação nativa e área de inundação.
Na União Europeia, os sistemas de drenagem urbana sustentável incorporam expressamente canais vegetados, swales, faixas filtrantes, áreas de retenção, wetlands, jardins de chuva e outras soluções que utilizam processos naturais para controlar o escoamento superficial.
A Comissão Europeia também destaca que sistemas sustentáveis de drenagem procuram imitar os processos naturais, retardando o escoamento e administrando a água próxima ao local onde ela precipita.
Portanto, afirmar simplesmente que “a vala aberta é antiga e a tubulação é moderna” é tecnicamente inadequado.
A engenharia moderna não está necessariamente enterrando a água. Em muitos casos, está fazendo exatamente o contrário: está trazendo a água novamente para a superfície.
3. Por que uma vala vegetada pode apresentar vantagens?
Uma vala aberta, corretamente projetada e mantida, pode desempenhar simultaneamente diversas funções.
Ela pode:
- transportar a água;
- retardar a velocidade do escoamento;
- proporcionar armazenamento temporário;
- permitir a deposição controlada de sedimentos;
- facilitar a inspeção visual;
- facilitar a identificação de obstruções;
- permitir manutenção e limpeza mais simples em determinados casos;
- incorporar vegetação;
- contribuir para a retenção de sedimentos e poluentes;
- integrar-se a áreas verdes;
- oferecer maior visibilidade do comportamento hidráulico do sistema.
Os chamados swales, por exemplo, são descritos tecnicamente como canais rasos e vegetados que podem armazenar ou conduzir a água, reduzindo vazões e volumes de escoamento e contribuindo para a remoção de poluentes.
Isso não significa que toda vala aberta seja boa ou que toda tubulação seja ruim.
Significa que a escolha deve ser feita a partir das características hidráulicas, geotécnicas, ambientais e urbanísticas do local.
4. Imbé possui condições particularmente delicadas
Imbé não pode ser tratado como se tivesse as mesmas condições de um município com terreno inclinado, solo argiloso profundo e lençol freático muito abaixo das tubulações.
Aqui temos características que precisam ser consideradas conjuntamente:
- terreno predominantemente plano;
- solo arenoso;
- lençol freático superficial;
- variações do nível da água subterrânea;
- baixa disponibilidade de declividade;
- influência do Rio Tramandaí;
- influência das marés;
- possibilidade de refluxo a partir do sistema receptor;
- necessidade de condução eficiente das águas durante eventos intensos de precipitação.
O GAT chama atenção precisamente para essas condições e observa que, em terreno plano, são necessárias condições geométricas adequadas para garantir o escoamento e evitar problemas de sedimentação. Também destaca que o nível do Rio Tramandaí e a influência das marés podem produzir efeitos de remanso, limitando a descarga do sistema.
Portanto, não basta colocar um tubo no lugar da vala.
É preciso demonstrar que o novo sistema funcionará hidraulicamente nas condições reais de Imbé.
5. Um dos problemas mais graves: a tubulação enterrada deixa de mostrar o que está acontecendo
Este é um ponto fundamental.
Quando uma vala está aberta, o seu comportamento pode ser observado.
Pode-se verificar:
- nível da água;
- velocidade aproximada do escoamento;
- presença de sedimentos;
- obstruções;
- vegetação;
- pontos de erosão;
- entrada de água;
- redução da seção.
Quando a água passa para uma tubulação enterrada, grande parte dessas informações desaparece da observação cotidiana.
O problema pode permanecer oculto até que apareça justamente quando o sistema é mais necessário: durante uma chuva intensa.
O próprio GAT observou que a substituição por tubulações não elimina necessariamente os problemas de obstrução por resíduos sólidos e pode até dificultar sua identificação, justamente porque o problema passa a ocorrer dentro de uma estrutura que não pode ser visualizada diretamente.
6. Outro problema que precisa ser investigado: infiltração de água subterrânea nas juntas
Aqui entramos em uma questão diferente e extremamente importante para Imbé.
Uma tubulação enterrada precisa funcionar como uma estrutura hidraulicamente controlada.
Se as juntas, conexões, caixas de inspeção ou outros pontos do sistema não forem adequadamente estanques, pode ocorrer infiltração de água do lençol freático para o interior da tubulação.
Em um ambiente arenoso, essa infiltração pode transportar partículas muito finas de areia.
O resultado pode ser progressivo:
água subterrânea → entrada pela junta ou conexão → carreamento de partículas finas → formação de vazios no entorno → perda de material do solo → redução da estabilidade do terreno → possibilidade de erosões localizadas.
O próprio GAT ressalta que a utilização de PEAD não resolve, por si só, problemas relacionados à entrada de água subterrânea por caixas de inspeção e outros pontos do sistema, nem garante automaticamente a estanqueidade de toda a rede.
7. O problema pode aparecer na superfície somente depois que a tubulação já foi enterrada
Existe ainda um aspecto que merece investigação específica em Imbé.
Após a conclusão e o recobrimento da tubulação, eventuais processos erosivos subterrâneos podem deixar de ser imediatamente perceptíveis.
Quando a água subterrânea encontra uma passagem preferencial através de uma junta inadequadamente executada, pode ocorrer migração de partículas finas do solo.
Com o tempo, esse processo pode produzir uma zona de perda de material no entorno da tubulação.
Em determinadas situações, a evolução desse vazio pode se manifestar posteriormente na superfície do terreno, através de recalques, depressões ou erosões que se desenvolvem em direção às juntas ou conexões da tubulação.
Essa hipótese não deve ser afirmada sem inspeção e investigação de campo.
Mas, exatamente por isso, deve ser tecnicamente investigada antes que a substituição das valas continue sendo executada de forma sistemática.
É necessário verificar:
- estanqueidade das juntas;
- qualidade da execução;
- tipo de conexão;
- condições das caixas de inspeção;
- nível do lençol freático;
- granulometria do solo;
- ocorrência de carreamento de areia;
- existência de vazios no entorno das tubulações;
- recalques superficiais;
- perda de material junto às juntas;
- evolução desses problemas ao longo do tempo.
8. O diâmetro do tubo não resolve sozinho o problema
É comum ouvir que uma tubulação de maior diâmetro necessariamente resolverá a drenagem.
Isso não é correto.
A capacidade real do sistema depende de um conjunto de fatores:
- área da bacia contribuinte;
- intensidade e duração da chuva;
- vazão de projeto;
- cotas de entrada e saída;
- declividade disponível;
- rugosidade;
- nível do lençol freático;
- quantidade de sedimentos;
- condições de manutenção;
- capacidade do sistema receptor;
- nível do Rio Tramandaí;
- influência da maré;
- possibilidade de refluxo;
- eventual necessidade de bombeamento.
O GAT destaca justamente que, em terreno plano, a declividade disponível e as condições de descarga são fatores determinantes, e que o nível do sistema receptor pode limitar a eficiência da drenagem.
Assim, um tubo grande colocado em uma posição inadequada continua podendo constituir uma solução inadequada.
9. E existe uma questão ainda mais importante: o sistema de Imbé é interligado
Não se pode analisar cada trecho de tubulação isoladamente.
Quando uma vala é substituída por tubulação, a água não desaparece.
Ela simplesmente passa a ser conduzida por outro caminho.
Se milhares de metros de canais abertos forem progressivamente substituídos por tubulações, haverá alteração do comportamento hidráulico de toda a rede.
Pode haver:
- aumento da velocidade de chegada da água;
- redução de áreas de armazenamento temporário;
- concentração de vazões;
- transporte de sedimentos para trechos posteriores;
- obstruções ocultas;
- alteração dos níveis d'água;
- sobrecarga de trechos a jusante;
- maior dependência de bombeamento;
- maior vulnerabilidade durante eventos extremos.
Por isso, não é tecnicamente aceitável analisar a substituição de cada vala apenas como uma obra isolada.
É necessária uma visão de macrodrenagem e de bacia hidrográfica urbana.
10. A engenharia ambiental contemporânea está caminhando para soluções diferentes
Esta é talvez a principal questão que precisa ser compreendida pela população.
Durante décadas, a concepção tradicional de drenagem procurou retirar a água rapidamente de determinado ponto e conduzi-la para jusante.
Hoje, a engenharia ambiental vem buscando soluções que trabalhem com os processos naturais, em vez de simplesmente combatê-los.
Entre essas soluções estão:
- canais vegetados;
- áreas de retenção;
- áreas de detenção;
- jardins de chuva;
- pavimentos permeáveis;
- wetlands;
- parques lineares;
- bacias de retenção;
- faixas vegetadas;
- sistemas de infiltração, quando as condições do solo e do lençol freático permitem;
- recuperação de canais anteriormente canalizados ou enterrados.
A União Europeia considera essas soluções parte da abordagem contemporânea de drenagem urbana sustentável.
E projetos de recuperação de cursos d'água enterrados demonstram que, em determinados contextos, a retirada de tubulações e a reabertura dos canais pode ser justamente a solução ambientalmente mais adequada.
Portanto, em vez de perguntar:
“Por que ainda existem valas em Imbé?”
A pergunta tecnicamente correta deveria ser:
“Qual solução de drenagem é mais eficiente, segura, sustentável e adequada às características específicas de Imbé?”
Essa é uma pergunta muito diferente.
11. Não se trata de defender valas por princípio
É importante deixar isso absolutamente claro.
Nem toda vala aberta é adequada.
Da mesma forma:
nem toda tubulação é inadequada.
Existem situações em que a utilização de tubulações é tecnicamente justificável e necessária.
O problema está em transformar uma solução específica em uma regra geral, sem demonstrar que ela é adequada para todas as condições encontradas no município.
O que se exige é engenharia.
E engenharia significa:
levantar → estudar → calcular → comparar alternativas → projetar → executar → fiscalizar → monitorar.
12. O próprio parecer técnico do Ministério Público aponta a necessidade desses elementos
O Parecer Técnico UAA nº 1194/2026 é particularmente importante porque não se limita a uma discussão abstrata.
O GAT aponta a necessidade de disponibilização dos projetos completos das obras de drenagem realizadas e planejadas, incluindo memoriais descritivos e de cálculo, desenhos técnicos, plantas, perfis longitudinais, detalhes e orçamentos.
Também destaca a necessidade de justificar tecnicamente a solução convencional adotada e compará-la com alternativas de retenção e controle.
Além disso, o GAT concluiu que o Município não apresentou os elementos suficientes para demonstrar a eficácia da solução adotada nem a ausência de alternativas sustentáveis.
Isso é extremamente relevante.
Porque a discussão deixa de ser:
“A ACIBM é contra as tubulações.”
Não é isso.
A questão é:
“Onde estão os estudos, os levantamentos, os cálculos e os projetos que demonstram que essa solução é a melhor para Imbé?”
13. Antes de continuar enterrando as valas, é preciso demonstrar que a solução funciona
Antes da continuidade de uma política sistemática de substituição das valas existentes, deveriam ser conhecidos, entre outros elementos:
1. levantamento topográfico e planialtimétrico detalhado;
2. níveis e variações do lençol freático;
3. levantamento das bacias contribuintes;
4. estudo hidrológico;
5. estudo hidráulico;
6. estudo geotécnico;
7. verificação da granulometria e comportamento do solo arenoso;
8. dimensionamento das tubulações;
9. análise das declividades disponíveis;
10.análise da capacidade dos sistemas a jusante;
11.influência dos níveis do Rio Tramandaí;
12.influência das marés;
13.possibilidade de refluxo;
14.análise do transporte e deposição de sedimentos;
15.análise da estanqueidade das juntas e conexões;
16.plano de inspeção e manutenção;
17.necessidade e confiabilidade de eventual bombeamento;
18.custos de energia e manutenção;
19.comportamento durante eventos extremos;
20.comparação técnica e econômica com soluções abertas, vegetadas e de retenção.
Sem isso, não se demonstra que a substituição de uma vala por uma tubulação representa melhoria.
Demonstra-se apenas que uma vala foi enterrada.
14. A pergunta central para Imbé
A população não precisa escolher entre “vala” e “tubo” por preferência estética.
Precisa exigir uma resposta técnica:
Qual sistema proporciona melhor desempenho hidráulico para as condições reais de Imbé?
Se a resposta for a tubulação, que sejam apresentados os estudos que comprovem isso.
Se a resposta for uma combinação de tubulações, canais abertos, retenção e soluções vegetadas, que o projeto adote essa combinação.
Se a vala existente apresentar desempenho hidráulico satisfatório, ambientalmente adequado e economicamente vantajoso, por que enterrá-la?
E se uma tubulação já implantada estiver apresentando assoreamento, infiltrações, recalques ou perda de capacidade, é necessário investigar a causa antes de simplesmente continuar reproduzindo a mesma solução em outros locais.
15. Não se pode combater alagamentos criando novas vulnerabilidades
Uma obra de drenagem é feita para reduzir riscos.
Por isso, seria uma contradição técnica que uma intervenção destinada a combater alagamentos pudesse, por deficiência de projeto, execução ou manutenção, contribuir para aumentar a vulnerabilidade do sistema.
É justamente por isso que obras de macrodrenagem exigem planejamento e estudos prévios.
Em Imbé, onde o terreno é plano, o solo é arenoso, o lençol freático é superficial e existe influência do Rio Tramandaí e das marés, a margem para soluções genéricas é ainda menor.
Não existe uma solução universal.
Existe a solução que funciona para aquele território.
16. A questão não é ser contra obras. É exigir engenharia.
Imbé precisa de drenagem eficiente.
Precisa de ruas transitáveis.
Precisa proteger os imóveis.
Precisa reduzir os alagamentos.
Mas precisa também preservar os recursos naturais e utilizar soluções compatíveis com as características ambientais do município.
A engenharia ambiental contemporânea demonstra que, em muitos casos, a água não precisa ser escondida para que seja corretamente administrada.
Canais vegetados, áreas de retenção, soluções baseadas na natureza e recuperação de cursos d'água enterrados fazem parte da engenharia moderna de gestão das águas.
Por isso, talvez seja hora de inverter a pergunta.
Não devemos perguntar apenas:
“Como podemos enterrar mais valas?”
Devemos perguntar:
“Por que estamos enterrando valas que podem desempenhar funções hidráulicas e ambientais importantes, sem antes demonstrar, por meio de estudos e projetos completos, que a tubulação será tecnicamente superior?”
Essa é a discussão que Imbé precisa fazer.
Não para ser contra obras.
Não para defender valas por princípio.
Mas para exigir que cada obra seja tecnicamente justificada, ambientalmente adequada, economicamente responsável e capaz de cumprir a finalidade para a qual foi construída.
Porque drenagem é engenharia.
E engenharia começa com conhecimento, levantamento, cálculo e projeto — não com o enterramento da água.
Prof. Eng. Athos Stern
Engenheiro Civil – CREA/RS 11.128
Professor aposentado da UFRGS
Consultor Técnico da ACIBM
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