HISTÓRIA DA MACRODRENAGEM DE IMBÉ
ATHOS STERN
Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs
Ex-presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé- Braço Morto
UM RELATO DE QUEM ACOMPANHA A TRANSFORMAÇÃO DE IMBÉ,
DE 1959 ATÉ HOJE. E PENSA NO FUTURO.
A história da drenagem de Imbé não pode ser analisada apenas a partir dos problemas atuais de alagamento. É necessário compreender como o território se transformou ao longo das últimas décadas e como essas transformações modificaram as condições naturais de drenagem da cidade.
Tenho uma relação pessoal com Imbé que remonta a 1959. Naquele ano concluí minha formação em Engenharia pela Escola de Engenharia de Porto Alegre e, a partir de 1960, já como engenheiro, passei a acompanhar de perto as transformações que ocorreram na região. Ao mesmo tempo, comecei meu relacionamento com uma veranista de Imbé, com quem posteriormente me casei.
Portanto, o que segue não é apenas uma reconstrução baseada em documentos. É também o relato de alguém que acompanhou pessoalmente a evolução de Imbé durante mais de seis décadas, observando as condições de drenagem existentes no início desse período e as profundas modificações ocorridas posteriormente.
1. Imbé antes da transformação da barra
Na década de 1940, a desembocadura do Rio Tramandaí encontrava-se aproximadamente 900 metros ao norte da posição atual, nas proximidades da atual Praia de Presidente.
Naquela época, a configuração do sistema lagunar e dos cursos d'água era bastante diferente da atual.
Quando comecei a acompanhar Imbé, em 1959, o sistema de valas de drenagem existentes na área urbana funcionava satisfatoriamente.
Isso não significa que nunca houvesse água acumulada. Pequenos alagamentos localizados podiam ocorrer depois de precipitações mais intensas, como é natural em uma região plana e arenosa. Entretanto, não existia a situação de alagamentos generalizados que hoje interfere na circulação pelas principais avenidas e atinge ruas, calçadas e imóveis.
Essa diferença é fundamental para compreender a história da drenagem de Imbé.
2. A estabilização da barra do Rio Tramandaí
A partir do final da década de 1950 e início da década de 1960 ocorreu uma transformação decisiva na configuração física da região.
Foi construído o guia-corrente na margem de Imbé, obra realizada aproximadamente entre 1960 e 1961, que contribuiu para a estabilização definitiva da barra do Rio Tramandaí.
Estudos posteriores baseados em fotografias aéreas indicam 1961 como um marco da estabilização da posição da desembocadura.
Essa intervenção modificou profundamente a dinâmica hidráulica e sedimentar existente anteriormente.
A partir da estabilização da barra, o antigo braço do Rio Tramandaí — que passou a ser conhecido como Braço Morto — perdeu progressivamente sua comunicação e sua capacidade de escoamento.
3. A transformação do antigo Braço Morto
Com a redução da circulação das águas, iniciou-se um processo progressivo de transformação do antigo leito.
Esse processo não pode ser atribuído a uma única causa.
A redução da lâmina d'água, a evaporação, a dinâmica natural das areias e a ação dos ventos sobre as dunas existentes contribuíram para a progressiva modificação daquela área.
Posteriormente, também ocorreram intervenções humanas, incluindo aterros e ocupações.
Assim, uma área que anteriormente fazia parte de um sistema natural de circulação das águas foi gradualmente transformada em terreno passível de ocupação urbana.
Essa transformação é fundamental para compreender a drenagem atual de Imbé.
4. O loteamento da área pelo Município de Osório
A história fundiária dessa região também merece atenção.
Documentação judicial posteriormente produzida registra que o Município de Osório, que então detinha o domínio da área, promoveu o seu loteamento.
Particularmente importante é o registro de que aproximadamente 25 hectares que haviam aderido à margem de Imbé foram loteados pela Prefeitura de Osório em 1971.
Os lotes foram concedidos em enfiteuse, regime pelo qual particulares recebiam o domínio útil de terrenos de marinha e seus acrescidos, mediante pagamento de foro anual, enquanto o domínio direto permanecia com o poder público.
Mais tarde, parte dessas áreas foi reconhecida judicialmente como terreno de marinha, pertencente à União.
O episódio revela uma transformação marcante: uma paisagem moldada pela dinâmica do rio, pela ação dos ventos e pela intervenção humana deu lugar, gradualmente, à ocupação urbana do atual Braço Morto.
5. E a drenagem de Imbé?
Aqui começa uma questão que, a meu ver, precisa ser examinada com especial atenção.
Depois de 1961, à medida que a configuração do antigo Braço Morto se modificava e a urbanização avançava, a drenagem natural da região também foi sendo alterada.
Entretanto, durante muitos anos, o sistema de valas abertas de drenagem existente em Imbé continuou desempenhando sua função.
Eu acompanhei esse período.
Como engenheiro, conheci Imbé naquela época e pude observar que a cidade possuía condições de drenagem muito diferentes das atuais.
O problema que hoje enfrentamos, portanto, não surgiu simplesmente porque Imbé é uma cidade plana, arenosa e com lençol freático elevado.
Essas características naturais sempre existiram.
A questão é saber como o sistema de drenagem foi sendo modificado à medida que a cidade se urbanizou e se essas modificações foram acompanhadas pela implantação de uma verdadeira macrodrenagem, capaz de receber e conduzir adequadamente as águas provenientes de toda a área urbana.
6. A área que hoje apresenta os principais problemas de alagamento
A área que atualmente necessita ser considerada em um projeto de macrodrenagem abrange aproximadamente 5.700.000 m², delimitados, de maneira aproximada, pelas:
- Avenida Beira-Mar;
- Avenida Rio Grande;
- Avenida Paraguassú; e
- Avenida Não-Me-Toque.
É uma área extensa e predominantemente plana.
Por suas características topográficas, geológicas e hidrogeológicas, não basta simplesmente instalar tubulações nas ruas.
É necessário conhecer:
onde a água se acumula;
para onde ela deve ser conduzida;
quais são as cotas do terreno;
qual é o nível do lençol freático;
quais são as cotas de saída;
qual é a capacidade dos cursos receptores;
e qual sistema deve funcionar como macrodrenagem.
Até o presente momento, segundo os elementos que temos acompanhado, não foi apresentado um projeto de macrodrenagem para essa área, concebido para suas condições específicas.
7. Os alagamentos que hoje podem ser observados
A situação atual deixou de ser apenas uma questão teórica.
Fotografias recentes registram alagamentos expressivos em importantes vias de Imbé.
Avenida São Miguel
Em determinados episódios de chuva, aproximadamente 1.060 metros da Avenida São Miguel podem permanecer sob forte alagamento.
A situação também foi registrada em aproximadamente 1.800 metros da Avenida Garibaldi, com a água ocupando extensos trechos da via.
Avenida Nilza Costa Godoy
Outro exemplo expressivo é a Avenida Nilza Costa Godoy, em um trecho de aproximadamente 2.800 metros, onde os alagamentos também passaram a comprometer significativamente a circulação.
Avenida Porto Alegre × Avenida Nilza Costa Godoy
A interseção dessas duas avenidas constitui outro ponto em que os efeitos do acúmulo de água podem ser claramente observados.
Essas imagens não representam apenas uma inconveniência para os motoristas.
Quando as águas ocupam avenidas, ruas e calçadas, o problema passa a atingir diretamente a mobilidade urbana, os imóveis e a segurança da população.
8. O agravamento observado a partir de 2023
Há ainda um fato que considero particularmente importante registrar.
A partir de 2023, começou a ocorrer uma substituição acelerada das antigas valas abertas de drenagem por tubulações subterrâneas.
Como engenheiro que acompanha Imbé há mais de seis décadas, considero necessário chamar a atenção para uma questão técnica fundamental:
enterrar uma vala não significa, por si só, criar um sistema de macrodrenagem.
Uma tubulação somente consegue transportar adequadamente a água se estiver integrada a um sistema hidráulico concebido para aquela finalidade, com cotas, declividades, capacidade de transporte, pontos de captação, estruturas de descarga e destino final adequados.
No caso de Imbé, existe ainda uma condição particularmente importante: o elevado nível do lençol freático.
Quando tubulações são implantadas abaixo do nível do lençol freático, é indispensável avaliar tecnicamente o comportamento hidráulico do sistema, inclusive a possibilidade de infiltração de água subterrânea para dentro das tubulações, a perda da função das antigas valas e a capacidade efetiva de escoamento.
9. Uma constatação que precisa ser investigada
O que estamos observando é uma coincidência temporal que merece investigação técnica.
As antigas valas de drenagem funcionaram durante décadas.
A partir de 2023, intensificou-se a substituição dessas estruturas por tubulações subterrâneas.
Paralelamente, passaram a ser registrados alagamentos mais extensos e frequentes em diversos pontos da cidade.
Isso não permite, por si só, afirmar que as tubulações sejam a única causa do agravamento.
Mas permite formular uma pergunta técnica perfeitamente legítima:
A substituição das valas abertas por tubulações subterrâneas está sendo realizada dentro de um sistema de macrodrenagem previamente projetado para as condições topográficas, geológicas e hidrogeológicas de Imbé?
Essa é uma pergunta que precisa ser respondida com projeto, cálculos, levantamentos topográficos, estudos hidráulicos e dados, e não apenas com a execução de novas obras de drenagem.
10. O problema de Imbé não é apenas de microdrenagem
Uma rede de galerias e tubulações instaladas nas ruas constitui essencialmente um sistema de microdrenagem.
A microdrenagem precisa estar conectada a uma estrutura de macrodrenagem capaz de receber os volumes de água produzidos por toda a área urbana e conduzi-los adequadamente até seus destinos finais.
Sem essa integração, existe o risco de simplesmente transportar a água de um ponto para outro.
É por isso que, diante da dimensão que os alagamentos já alcançaram, torna-se necessário discutir não apenas novas tubulações, mas qual é o sistema de macrodrenagem de Imbé, onde ele está projetado, quais são suas vazões de projeto e qual é a sua capacidade de funcionamento.
11. O que minha memória de engenheiro permite afirmar
Desde 1959, acompanhei pessoalmente a transformação de Imbé.
Vi uma cidade com um sistema de valas que, embora simples, atendia às condições existentes naquele período.
Acompanhei a transformação da barra do Rio Tramandaí, a perda progressiva do antigo Braço Morto, a ocupação e urbanização das áreas que posteriormente foram loteadas e, ao longo das décadas, a transformação de Imbé em uma cidade cada vez mais densamente ocupada.
O que observo hoje é muito diferente daquilo que conheci no início da década de 1960.
Por isso, considero que a discussão sobre os alagamentos de Imbé não pode começar simplesmente pela pergunta:
"Qual tubo devemos colocar nesta rua?"
A pergunta fundamental deveria ser outra:
"Qual é o sistema de macrodrenagem que Imbé necessita para funcionar adequadamente nas condições atuais de ocupação urbana, topografia, solo e nível do lençol freático?"
Essa resposta ainda precisa ser apresentada à população.
12. Uma história que precisa ser conhecida
A história da drenagem de Imbé é, na realidade, a história da transformação do próprio território.
Primeiro, houve a mudança da desembocadura do Rio Tramandaí.
Depois, a estabilização da barra.
Em seguida, a progressiva transformação do antigo Braço Morto, pela combinação da dinâmica natural e das intervenções humanas.
Posteriormente, veio a ocupação urbana e o loteamento das áreas anteriormente relacionadas ao sistema hídrico.
Durante décadas, as valas abertas constituíram parte importante da drenagem urbana.
E, mais recentemente, essas estruturas começaram a ser substituídas por redes subterrâneas, sem que tenha sido demonstrada à população a existência de um projeto global de macrodrenagem capaz de integrar essas intervenções.
É essa sequência histórica que precisamos compreender.
Não se trata de impedir o desenvolvimento de Imbé.
Ao contrário.
Trata-se de fazer com que o desenvolvimento urbano seja acompanhado da infraestrutura necessária para que a cidade possa continuar crescendo sem transformar cada chuva mais intensa em um problema para milhares de moradores, veranistas e comerciantes.
O que o Guardião do Litoral Norte, a Associação Comunitária de Imbé – Braço Morto e a população estão solicitando é simples:
conhecer o projeto de macrodrenagem de Imbé, seus estudos, seus cálculos, suas vazões de projeto, suas cotas, seus pontos de descarga e sua compatibilidade com as condições naturais do território.
Porque, depois de mais de seis décadas acompanhando Imbé, uma coisa é evidente:
não se pode resolver um problema de macrodrenagem simplesmente enterrando as valas que durante décadas ajudaram a drenar a cidade.
13. Pontos relevantes que contribuíram para os crescentes alagamentos
Na década de 1960, Imbé ainda não constituía um município. A área que hoje forma o Município de Imbé pertencia inicialmente a Osório e, a partir de 1965, passou a integrar o Município de Tramandaí. Somente em 1988 ocorreu a emancipação de Imbé, instalada em 1º de janeiro de 1989.
Na configuração hidrográfica existente antes da fixação da barra do rio Tramandaí, as águas provenientes das avenidas Não-Me-Toque, Carazinho, Caxias do Sul, São Luís, Frederico Westphalen, Garibaldi e Santa Rosa encontravam seu caminho natural em direção ao rio Tramandaí.
O antigo curso do rio acompanhava aproximadamente a atual Avenida Rio Grande, dirigia-se ao Lago do Braço Morto e, depois de atravessá-lo, fletia em direção à então Rua São Miguel, seguindo aproximadamente por esse eixo até alcançar sua antiga foz, nas proximidades da atual Praia Presidente.
Essa configuração é fundamental para compreender o que ocorreu posteriormente.
A intervenção que alterou a drenagem natural
A vala ou canaleta de drenagem da rua São Miguel somente poderia ter sido executada após a fixação da barra do rio Tramandaí, pois foi justamente a alteração da posição da desembocadura do rio que rompeu a lógica do antigo sistema de escoamento com destino ao rio Tramandaí.
E é nesse momento que aparece, aparentemente, um dos mais importantes erros de concepção do sistema de drenagem de Imbé.
Em vez de aproveitar o antigo caminho natural das águas — isto é, acompanhar aproximadamente a declividade e o sentido de escoamento do antigo leito do rio Tramandaí —, foi feito o oposto: as águas passaram a ser conduzidas em direção ao Lago do Braço Morto e, posteriormente, ao rio e à sua nova foz, através da canaleta da rua São Miguel, em sentido hidráulico contrário ao da declividade natural do antigo leito.
Em outras palavras: em vez de deixar a água descer pelo caminho natural, a solução adotada passou a exigir que a vala ou canaleta conduzisse a água no sentido inverso da declividade original.
Isso não é uma simples mudança de traçado. Em uma região extremamente plana, de pequena diferença de cotas e com lençol freático elevado, inverter o sentido natural do escoamento é uma decisão hidráulica que exige demonstração técnica rigorosa: cotas, declividades, seções, capacidade de condução, níveis de jusante e condições de descarga.
E o problema não terminou aí
O agravante é que, além de contrariar o sentido da declividade natural do antigo leito, o novo percurso teria aumentado significativamente a distância que as águas precisavam percorrer até alcançar o sistema de descarga.
Pelo antigo caminho, a distância até a região da antiga foz, nas proximidades da atual Praia Presidente, seria da ordem de 1.550 metros.
Com a solução posteriormente adotada, o percurso passou a ser de aproximadamente 2.500 metros.
Ou seja, teria ocorrido uma combinação particularmente desfavorável:
1. abandonou-se o caminho natural de escoamento;
2. inverteu-se o sentido hidráulico em relação à declividade do antigo leito; e
3. aumentou-se substancialmente o percurso necessário para a água alcançar sua descarga.
Em uma cidade plana como Imbé, isso é particularmente grave.
Quanto maior o percurso, maior a perda de carga; quanto menor a declividade disponível, menor a capacidade de escoamento; e, se o sistema ainda trabalha em condições de nível elevado no ponto de descarga, a água perde ainda mais capacidade de sair rapidamente da área urbana.
O resultado previsível é a redução da capacidade de drenagem e o prolongamento do tempo de permanência das águas, sobretudo durante chuvas mais intensas ou quando o nível do sistema receptor está elevado.
Um erro que pode ter sido multiplicado ao longo das décadas
O problema torna-se ainda mais sério porque, em vez de se reconhecer a necessidade de compreender o funcionamento hidráulico original do território, a urbanização foi progressivamente ocupando e modificando as antigas áreas de passagem das águas.
Como se verá em uma próxima edição, antigas valas e caminhos superficiais foram sendo substituídos por tubulações, muitas vezes sem que se disponha, de forma pública e integrada, de um projeto de macrodrenagem baseado em levantamento topográfico, cotas, declividades, capacidade hidráulica, níveis do lençol freático e condições de descarga.
Assim, uma possível decisão equivocada tomada na origem pode ter sido sucessivamente reproduzida e agravada por intervenções posteriores.
É preciso, portanto, deixar de olhar cada obra de drenagem isoladamente.
A pergunta fundamental é outra:
Qual era o caminho natural das águas antes das intervenções realizadas após a fixação da barra do rio Tramandaí, e por que esse caminho foi abandonado justamente em uma região onde a topografia oferece tão pouca declividade para o escoamento?
Responder a essa pergunta exige recuperar a história hidráulica de Imbé — mapas, fotografias aéreas, projetos, cotas e registros das primeiras obras de drenagem.
Porque, se a hipótese se confirmar documentalmente, o problema atual de alagamentos não começou com as tubulações que estão sendo instaladas hoje. Ele pode ter sua origem em uma decisão de engenharia tomada há muitas décadas, quando se alterou o caminho das águas sem respeitar o sentido natural do antigo sistema de drenagem.
E, se isso ocorreu, há uma lição que não pode ser ignorada:
em uma planície como Imbé, não se pode combater a água simplesmente enterrando-a. É preciso compreender para onde ela naturalmente quer ir e criar condições hidráulicas para que consiga chegar lá.
No próximo capítulo, veremos o que ocorreu na década de 2020 e como as intervenções realizadas desde então contribuíram para levar o sistema de drenagem do centro de Imbé à situação que encontramos hoje.




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Bah!
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